segunda-feira, 9 de abril de 2018

Fachadas...

O senhor Jonas bateu à porta para pedir água e electricidade para as obras do prédio. É o encarregado da remodelação da fachada, simpático e educado que me trata por "senhora" e agradece sempre com extrema delicadeza e cortesia.
Não é fácil resolvermos a falta de electricidade e de água do condomínio, mas eu digo-lhe que havemos de encontrar a melhor solução (mesmo se ainda não sei qual será, ou até, se não existe de facto nenhuma solução cómoda que dependa de mim). Ele sorri a esta esperança e subitamente lembra-se que hoje não é dia de sorrir. 
- "Desculpe senhora, eu estou a rir, mas eu estou muito triste."
Mataram o sobrinho do senhor Jonas. 
As lágrimas escorrem pelo rosto moreno e são amparadas pelas mãos calejadas de pedreiro experiente. O senhor Jonas é brasileiro e trabalha em Portugal há 3 anos. A família continua no Brasil perto de Vitória no estado de Espirito Santo e ontem, no telefonema regular que faz para esposa, recebeu esta notícia.
O filho do irmão tinha 16 anos e foi assassinado. O senhor Jonas assegura que ele não se metia com drogas e era um miúdo que gostava muito de estudar, como se isso fosse o mais importante. Não me interessam os pormenores nem a bidimensionalidade da vida arrumada em bom ou mau, nem as curiosidades de tamanha brutalidade. Toda a morte é uma brutalidade. Seguro-lhe no braço e fico ali a ouvi-lo fazer o luto com uma desconhecida. 

Fala-me de quando o sobrinho era pequeno e ia ter com ele ao trabalho, faz o gesto para mostrar um menino de 80 cm "a pegar numa latinha com água e fingir fazer massa, ele brincava, dava-nos ânimo e nós a ele", suspira. "Hoje era um rapaz alto, bonito, olho azul, pele clara... Ninguém dá a vida e por isso ninguém devia tirá-la. Só Deus. Que Deus faça aqueles bandidos mudarem de vida". 
O senhor Jonas tem uma idade indefinida que eu imagino ter a forma do número sessenta. O que me disse no início destes trabalhos é que veio para Portugal em busca de uma vida melhor e mais segura, por causa da violência na sua cidade e que espera este ano trazer a sua família. Contou, na altura, a história de algumas mortes e assaltos violentos no seu bairro, na sua rua...
Hoje percebo que nunca antes havia sido assassinado ninguém tão próximo, mesmo tendo visto morrer alguns vizinhos. O senhor Jonas está triste, era chegado ao sobrinho e a distância amplia a tristeza da sua família, do seu querido irmão e de toda esta desgraça. 

O senhor Jonas está a trabalhar, como todas as segundas-feiras, e quem passa na rua e o vê energético a fazer cimento para revestir a fachada do prédio não imagina o que lhe vai por dentro. Nem eu, que lhe segurei o braço e lhe vi as lágrimas, consigo saber o que o habita. Imaginar o que vai dentro dos outros requer ir dentro de nós e revisitar as nossas histórias, as divisões onde guardamos experiências parecidas. Fui lá buscar referências para esta dor e lembrei as minhas perdas. Também me tocou aquela perda. 
Continua a ser importante tratar das fachadas. E para mim continua a ser cada vez mais importante "espreitar" lá para dentro, como permitiu hoje o senhor Jonas. Obrigada pela confiança.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Coelhos...

Ofereceram-me um coelhinho de chocolate como presente de Páscoa. Gosto muito de presentes e de chocolates. Ainda assim, tirando a Páscoa e o Natal, penso que os chocolates não são presentes, porque são sempre passado... Desaparecem. Enfim eu ainda não comi o coelho, por isso ele continua presente.
Estava a olhar para ele e pensei que daria uma boa fotografia para a sequência de três imagens que uso no Instagram e lá vou eu conversar com o coelho que habita a cozinha e pergunto-lhe: estarás tu, querido coelhinho de chocolate, para os vegetarianos, da mesma forma que os cigarros de chocolate estão para as crianças? Ele não respondeu, sorri a imaginar-lhe a resposta numa voz fininha.
O primeiro cliché é pensar que o que conta é o interior. A forma é um mero artefacto da superficialidade. 
E não será a forma uma maneira de mostrar o interior? É e não é! 
O que seria do coelhinho sem a sua roupinha dourada que lhe define os olhos e o sorriso?
E o mais importante é que assim vestido eu sei que o coelho é de chocolate mesmo sem ver o chocolate.
Quando me dizem para usar decotes (que me favorecem) eu não mudo a forma (as mamas continuam as mesma) e também não mudo o interior... Ou mudo ambas?
Talvez isto venha explicado em algum dos livros que tenho aqui ao lado e seja um bom pretexto para uma boa, profunda e divertida conversa sobre arte e decoração. Sobre percepção e verdade, imaginação e desejo... Sem uma pulsão interior não há arte, e ainda assim a decoração de interiores é uma disciplina forte e importante no nosso contexto. (Um trocadilho de palavras e de sentidos heehhheh) 
Teorizo sem recorrer a fontes, sem ler outros textos que falem sobre isto, nem citar autores famosos, que a arte é um processo predominante individual (mesmo que partilhado), intencional (mesmo que espontâneo), com história (mesmo que único) que leva cada um mais dentro de si (estejamos nós de um lado ou de outro da obra), a decoração é um processo social que nos leva aos outros, um resultado para ser visto em contraponto com um resultado em si que penso ser o projecto artístico.
Dará o mesmo prazer um decote e um chocolate? Enquanto objecto um coelhinho de Páscoa sem o papel colorido que o decora é um objecto amorfo, já uma mulher com a camisola de gola alta pode ser chamada de amorfa? E de decote pode se tão apetitosa como um coelhinho de chocolate revestido a papel dourado?
Mas se o homem e a mulher não são obras de arte para que raio estou a fazer esta comparação? Não estamos a falar da mesma coisa, a menos que estejamos a falar só de mamas e por aí eu nem arrisco opinar, prefiro olhar para as obras do Jeff Koons.
Bom tempo de Páscoa para todos os coelhinhos e decotes desta complexa contemporaneidade da traição das imagens.



"A Traição das Imagens" de René Magritte (1929)







terça-feira, 6 de março de 2018

Paciência...

"A paciência é a chave para todos os problemas e a solução para todos os males."
Dizia-me um senhor na lavandaria self-service, indignado com o facto de um rapaz não ter esperado 10 minutos pela sua vez.
Aproveitava o pretexto para falar dos males do mundo e do que aprendeu com a sogra sobre "paciência" antes de ir "atestar os níveis de nicotina", enquanto esperava que a roupa acabasse o ciclo "natural" de secagem.
As lavandarias de bairro são os novos tanques comunitários, e este sinal dos tempos agrada-me porque não estraga nem mãos, nem costas, e principalmente porque permite conversar com muitos tipos de pessoas, homens e mulheres, novos e velhos... Passar do registo sociológico de comunidade a sociedade agrada-me muito e principalmente diverte-me.
Tempos bons estes, que nos fazem viver na diversidade e manter a roupa cheirosa.










sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Silêncios...

Hoje queria arrumar uma fotografia que anda no desktop há seis meses. É a fotografia de uma amiga que partiu cedo. Uma amiga cheia de vida e de luz que me inspirava à alegria e ao encontro. 
E porque é que escrevo isto agora? Porque ontem uma outra amiga se juntou a ela no céu.
Em seis meses duas mulheres fantásticas da mesma idade, e uma mão cheia de anos mais novas que eu, interrompem os seus caminhos e sonhos para ganharem horizontes que desconheço e sobre os quais tenho uma crença muito clara. Não é sobre esta crença que escrevo mas sobre este mistério da morte, que em qualquer idade é prematura, mas aos 34 e 35 anos me parece absurdo. Acredito (por causa daquela crença) que não é absurdo para quem parte, mas é definitivamente absurdo para quem fica. 
E como dar sentido a isto tudo?
Há coisas que não se conseguem explicar nem se conseguem rever em sentidos morais, religiosos, psicológicos ou filosóficos, a morte é uma dessas coisas que não encaixa pacificamente nas caixas da lógica em que arrumamos a vida.
A Rita e a Cláudia foram duas mulheres que conheci em países diferentes e em diferentes contextos de trabalho, que sempre me acolheram com uma simplicidade tocante, que sorriam à primeira interação e nesse semblante aberto descomplicavam os novelos dos dias. A Rita e a Cláudia inspiraram-me a viver, e hoje mais que nunca, inspiram-me à vida que vai para lá do acessório. Em momentos muito diferentes, em fases e idades muito diferentes, foram sempre testemunho de garra, independência, autonomia, energia, confiança, simplicidade e amor pela vida, e é isso que desejo honrar pelo privilégio que tive em cruzar-me nos seus caminhos.
Estas duas mulheres foram conforto e alegria, foram presença e festa, foram caminhantes e companheiras, foram Ubunto (eu sou porque tu és) e com isto geraram vida em mim.
E aqui me agarro e responsabilizo: a morte só faz sentido se gerar vida (como a semente). E por isso a única palavra que pode quebrar o silêncio neste momento é: OBRIAGADA!
E a crença que não se me desapega é a certeza de continuarmos juntas. 


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Setembro...

Setembro é o mês dos recomeços, ou será dos começos?
Na verdade começamos sempre a cada dia por isso talvez não haja mês para isso. E, ainda assim, 
há meses que são mais de começos que outros... Janeiro, Março e Setembro são os meus meses de recomeços, o ano novo e o meu natal, a primavera, e o tempo dos frutos maduros no final do verão, marcam o meu ritmo e as estações interiores que me regem.
Em todos estes momento há colheita e sementeira numa ordem que não é lógica nem biológica. 
Setembro é mês de recomeços e isso é maravilhosamente assustador como um salto para o vazio (onde nada falta).

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Buracos...

As estradas de terra ficam com buracos feitos pelas chuvas e pela passagem de carros e carros... As estradas de alcatrão também ficam com buracos e na verdade os buracos na estrada de alcatrão são muito mais "duros". Sentem-se mais, também, porque a velocidade é maior neste tipo de piso aonde o impacto dos pneus pode ser brutal.
Ainda assim só quero falar das estradas de terra batida e de velocidade.
Tenho uns amigos que moram num bairro em Bissau. Chego a casa deles por uma estrada de batida terra vermelha que até parece que nem levanta pó de tão calcada. Um destes dias estavam a arranjar a estrada. Camiões grandes descarregavam terra e pedra para taparem os buracos e duas grandes máquinas de terraplanagem, uma niveladora e um daqueles compactadores vibratórios com cilindros gigantes alisavam o pavimento vermelho vivo.
Fiquei encantada com aquele andar direito, sem solavancos que baralham fígados com baços e segui para casa aproveitando lentamente a calmaria.
Passada uma semana quando voltei à dita estrada, haviam levantado "quebra molas" de 20 em 20 metros... Quebramolas são lombas, pequenos muros que controle de velocidade, desta feita da mesma cor do pavimento e sem sinalização que desde logo faz subir o nível de surpresa ... Já não são os buracos que nos desarranjam as entranhas, são agora as lombas que também se podiam chamar quebra costelas ou quebra cabeças, se não estivermos muito atentos.
É certo que a estrada deixou de ter buracos, ainda assim o incomodo para o corpo é o mesmo. Esta brincadeira "concavóconvexa" deixa-me perplexa.
Talvez seja mais barato aceitar os buracos como medida de limite de velocidade e sinalizar devidamente tal intencionalidade. Em todo o caso as estradas "desarranjadas" são o melhor controlo de velocidade que conheço.


domingo, 11 de junho de 2017

Caminho...

Saio da casa, fecho o portão da rua, arrumo a chave no bolso direito da mochila e sigo pela esquerda em direcção a um dos escritórios. Para este, faço um atalho por um campus universitário, um espaço com uma arquitectura da qual gosto muito. Um espaço a precisar de cuidado e no qual passo como que a viajar no tempo, imaginando uma herança de outros (ou minha também). Subo e desço, pequenos lances de escadas protegidos do sol por alpendres que trazem sombra ao caminho, habitado por alunos que esperam aulas. Estas passagens frescas cruzam jardins interiores, com árvores e arbustos onde se pavoneiam os mais variados animais, dos quais sempre me encantam as galinhas pretas com pintas brancas...
Neste caminho é frequente que desconhecidos me cumprimentem, pois também eu pareço uma ave rara naquele caminho. Mesmo se vou muito metida comigo imaginando histórias em rostos ou espaços desconhecidos, sigo segura ultrapassando todos os que seguem na mesma direcção que eu, não é raro ouvir um bom dia, ou um, como é que está? 
Um destes dias, alguém encostado a uma parede, acompanhando a troca de passos rápidos e o anormal movimento acelerado, olha para mim e pergunta:
- Porquê tanta pressa? 
Sorri sem abrandar e sem resposta. Aquela pergunta ficou-me a ressoar! 

Porquê tanta pressa? 
Não vou atrasada, mas sigo apressada.
A pergunta continua a fazer sentido colocar-se, até num domingo.
Porquê tanta pressa?



Antigas instalações no Banco Nacional Ultramarino em Bissau

sábado, 3 de junho de 2017

Dia...


Há um dia em que o carro não pega.
Há um dia em que corres tanto que os sapatos, velhíssimos, te fazem bolhas nos pés.Há um dia em que não há ovos nem leite em lado nenhum. Há um dia em que chegas a casa e a chave não abre a porta.
Há um dia que traz de presente 50 quilos de arroz, alheiras e manjericão.
Há um dia em que encontras uma amiga na rua e vais com ela quebrar o jejum.
Há um dia em que as salas de tratamento são corredores e tu contas as gotas de quinino que entram na veia de outros.
Há um dia em que alguém te reconhece de longe e te chama pelo nome.
Há um dia em que ouves os gritos de uma velha mãe que perde o filho na cama de um hospital e ao mesmo tempo no andar de cima, ecoam os gritos da mãe que traz ao mundo um filho novo.
Há um dia em que chegas à cama tão de noite que não sabes quantos dias passaram desde a última vez que aqui estiveste.  

Já houve um dia assim em Bissau.
E todos os dias agradeço os dias intensos e imensos que se materializam em abraços, em reuniões que passam a conversas, em boleias de sorrisos com direito a experimentar roupa emprestada. Dias de conversas sobre panos e sobre viagens, artistas, arte e música. Dias em que se sonha com chutney de manga ou de caju. Dias em que se encontram alguns daqueles que não víamos há semanas e desejávamos tanto. 
E digo isto no plural porque é de plurais que se alimentam estes saborosos dias, mesmo que seja só um. 



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segunda-feira, 29 de maio de 2017

Desolhar...


Estava eu à procura de um sinónimo para uma palavra difícil e logo dou com os olhos na palavra desolhar.
Que palavra estranha e que estranheza bonita...
Eu posso tirar os olhos a alguém ou a alguma coisa, e no mesmo termo, esforçar-me para ver melhor e mais longe. É o paradoxo do que somos.
"Vale tudo menos tirar olhos" dizíamos nós nas brincadeiras quando éramos mais pequenos, e podíamos dizer se soubéssemos esta palavra, ou não pensássemos que estávamos errados "vale tudo menos desolhar" sem sabermos que às vezes, tirar olhos, ajuda ao desenvolvimento. 
Desolhar parece que faz parte da família de desdescer ou des-subir que são palavras que não existem ainda, mas que podem vir a existir integrando o universo da palavra descobrir.



de·so·lhar 
(des- + olho + -ar)
verbo transitivo
1. Tirar os olhos a.
2. Suprimir botões florais ou foliaresgeralmente para que a planta  melhores frutos e tenha melhor desenvolvimento.
3. [Brasil]  Tirar o mau-olhado de.
verbo pronominal
4. Esforçar-se ou esbugalhar os olhos para ver alguma coisa (ex.: desolhava-se para ver o palco).


"desolhar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/desolhar [consultado em 26-05-2017].

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Noite...

Vivo numa casa com varanda. Uma varanda que dá para a rua perpendicular à rua principal, com nome de músico, mesmo que ninguém saiba isso! 
Vivo numa casa que faz esquina com a rua principal em asfalto, que dá para uma rua desnivelada de terra batida que é o acesso a todas as casas que se encontram à minha esquerda e à minha frente. 
Mais ou menos a meio, no lado oposto à minha varanda, há um poço que serve as casas que não têm água canalizada.
No lado de fora do meu muro há um poste de luz amarela que me doura as noites quando me sento sozinha na varanda protegida dos mosquitos por uma rede fina. E como gosto deste momento de solidão nocturna a admirar o mundo que fervilha aqui à volta. Pode estar-se em silêncio com tantos barulhos à volta? Sim pode.
Passa uma aragem que alivia o calor dos dias e torna tudo mais leve e nítido na noite.
Os sons são muitos, parece barulho... Mas se atentar melhor, se me calar por dentro, consigo ver outras realidades sonoras que já não entram no espectro do ruído mas numa outra dimensão que não sei agora nomear.  
Ouve-se constantemente música, umas vezes baladas lamechas, umas vezes quizomba entre um solo de saxofone e uma canção da moda. Há canções que se repetem... E o som integra-se perfeitamente na "paisagem" que pinto de olhos fechados. Ou porque me habituei ou porque de facto assim acontece... a fronteira é tão ténue.
Ouço vozes de crianças a brincarem empolgadas, alguns gritos de espanto outros de raiva. Ouço amigos que fazem festa no bar da esquina, gente que passa falando alto, gente que ri num lado, gente que ralha e não sei se estão a 2 se a 20 metros, porque a noite tem esta magia de nos trazer sons sem referência das distâncias.
Os carros passam na rua José Carlos Schwarz a diferentes ritmos, como que a integrar a secção rítmica de uma orquestra moderna, com diferentes tilintares de chapa, roncares de motores, alguma travagem bruta, buzinas, cargas que se movem em "caixas abertas" de camionetas que contornam buracos. Imagino um arrastar de vento em forma de v que se vai esfumando no ar à medida que os veículos de afastam. E ouço também portas de carro que batem algures, como que se dum berimbau lento se tratasse.
O Jó, o nosso segurança, faz as suas lições de Português e lê em voz alta o seu livro da escola, numa língua que tenho dificuldade em reconhecer como minha. Rendo-me a este esforço de aprender e a este som de quem repete mecanicamente um desejo profundo. Este o primeiro passo para o conhecimento... 
Há movimento nas casas em frente, um movimento tranquilo de quem aprecia a noite como eu e se senta nas suas cadeiras de plástico a conversar e a apanhar "uma calma" como se diz no Alentejo, afinal somos todos muito mais parecidos do que parece.
Passam pessoas à minha frente, do outro lado do muro, rua acima, rua abaixo, e ao ver estes movimentos falta-me alguma coisa, percebo que a imagem não está de acordo com o som e imagino que não tenha colocado correctamente o jack nas colunas... Parece que flutuam, como que, se no meio daqueles sons todos, a rua fosse habitada apenas por espíritos, porque lhes falta o som dos passos no caminho que fazem à minha frente.
Falta-me o som dos passos, e contudo aos passos não falta nada, nesta realidade imaterial que eu escrevo para tornar mais concreta em mim.
O outro lado de enraizar é o flutuar, como a música. Os dois são precisos. E o som dos passos aqui, afinal, não faz falta nenhuma. 

Só uma nota para não me esquecer: a semana passada o Presidente da República passou por aqui e por isso taparam os buracos na estrada de asfalto que todos os anos fica ferida pelas chuvas e este ano não tinha visto ainda cura. Sabem o que isso significa? Significa que eu já não acordo de noite com o barulho das galeras dos camiões a saltarem por cima das crateras brutais e a caírem como morteiros. Significa que já nem me dou conta que tenho uma janela virada para a estrada. Significa que já nem me lembro dos buracos que por aqui havia porque deixaram de fazer barulho...





terça-feira, 16 de maio de 2017

Casas de banho...

Entrei numa casa de banho pública, na verdade na casa de banho de um centro comercial no centro de Lisboa.
Ao entrar já uma senhora, em frente ao espelho, olhava para dentro da carteira colocada em cima do lavatório.
Entrei num cubículo ao lado de um outro cuja maçaneta segurava um casaco aos quadrados que seria daquela senhora, fechei a porta e quando saí a mesma senhora continuava a procurar algo na sua carteira, como se de um poço sem fundo se tratasse. Olhei para ela e sorri enquanto lavava as mãos.
O reboliço estava instalado, as suas carteirinhas, lenços e um caderninho de argolas, usadíssimos e enrodilhados, ocuparam os lavatórios vizinhos... E ela continuava à procura.
De repente como que vencida, mas tranquila, suspira e diz para mim: 
- Está no casaco.
Rimos as duas, quando ela encontra o pentinho preto no bolso do casaco pendurado na porta atrás de nós.
De volta ao espelho diz-me enquanto se penteia. 
- Isto é um vício que eu tenho... Lavar as mãos e pentear o cabelo, principalmente em casas de banho boas e bonitas como esta. O meu filho diz que eu tenho cabelo de rato e é verdade... Fraquinho e fininho que mal se vê, mas que quer? Ele diz que, se não pentear até fica com mais volume. E é verdade...
Eu sorri enquanto secava as mãos com papel higiênico, sim, porque as máquinas de secar as mãos são as coisas mais anti-sociais que conheço nas casas de banho. Aprecio por demais a privacidade do meu cubículo com sanita que posso fechar e abomino as máquinas de secar as mãos, mas isso é outra história....
Continuando... Depois peguei no meu baton, como que a fazer companhia àquele ritual de beleza capilar sem dizer uma palavra e concordando com a opinião do seu filho. Aquele pente destruía agora, qualquer pretensão de volume naqueles finos fios cinzentos.
Só me ri e desejei-lhe um bom dia ao arrumar o baton.
A senhora agradeceu e respondeu:
- Muito obrigada por ter estado comigo. Pelo seu sorriso. Que Deus lhe dê o dobro do que me deseja. 
E eu saí a pensar que conscientemente não desejei nada à senhora, apenas estive... E que o dobro de nada é nada... 
Mas se estar ali com ela aqueles momentos... Estar sem pensar em nada, só estar presente e prazerosamente. Se a acompanhar na busca do pente perdido, foi um momento de relação e empatia, então talvez Deus me dê em dobro, encontros, tempos, sintonias e silêncios que confortam... Em todo o caso, e mesmo que este acto não tenha rentabilidade futura na caderneta de pontos das boas obras, já recebi humildemente nesta casa de banho a gratidão de uma desconhecida, a generosidade dos votos, a gratuidade dos encontros que não se programam e não se voltam a repetir. 
A gratuidade e a fecundidade dos encontros são das coisas mais mágicas da vida e tantas vezes os perdemos no barulho das máquinas de secar as mãos ou na preguiça de gestos de "ficar"... E no fim de contas perdemos o que verdadeiramente nos embeleza a cara. Eu, pelo menos, tenho a certeza que saí mais bonita daquela casa de banho e não foi só por usar o baton que me deu a Stina.

sábado, 8 de abril de 2017

Inspiração...

As teorias, os grupos, as tribos, as estéticas, os pensamentos, as línguas, os tempos (...) têm palavras que os caracterizam. As palavras são como as roupas, vestem-nos... Dizem o que somos, mesmo que umas vezes não queiram dizer nada. Visto-me para ir à festa ou visto-me com as palavras "capacitação e empoderamento" se estou numa ONGD e por aí a fora, do "shanty shanty" colorido a cheirar a incenso, às tatuagens celtas que povoam um universo negro e introspectivo com cheiro a erva. É certo que as palavras são cheias de sinónimos e pesos diferentes e por isso, tal como a roupa, não são absolutos e estão sempre sujeitas à moda.
Por exemplo, a expressão comum a todos os coachs do mundo é a bela utopia de "a minha melhor versão". Não consegues falar "coaches" se não usares no sítio certo a expressão "melhor versão". É inteligente a utilização destas palavras, reconheço isso. Pessoalmente cansa-me. 
Repete-se continuamente e a todo o custo que "a minha melhor versão" depende de mim, do meu esforço, do meu investimento, do meu umbigo. Sou totalmente responsável por tudo e o meu mundo resume-se à minha força, vontade e responsabilidade. Nem discuto isto. Só sei que me cansa.
Estas palavras deixam de fazer sentido para mim principalmente depois da dúzia de horas que juntam estes dois dias, em que a gratidão e o espanto foram o motor para uma palavra que me é mais querida, luminosa, preciosa e ajustada. 
A palavra do momento é inspiração.
Estar ao lado do Flora Gomes e ouvi-lo na sua simplicidade, acolhimento, inteireza e grandeza interior; ouvir o Mú Mbana, na sua pacifica melancolia que transmite respeito e ligação por um passado que se honra e nos constrói; sonhar com espaços onde a beleza, a reflexão, a alegria e a surpresa, possam ser acessíveis a todos os que desejam sonhar; amar quem termina uma mítica corrida na esperança de que "o inferno nos pode levar ao céu"; ouvir ELA do álbum Língua Franca deitada na solidão do meu querido sábado...
Menos de doze horas que me enchem de esperança no mundo e nas pessoas, ou melhor, no mundo que podemos (nós pessoas) construir, não só com as nossas melhores versões, mas com tudo o que somos. Um mundo que podemos construir inspirando-nos, conscientes das nossas contradições, idiossincrasias, incoerências e desconhecimentos... 
Quando saio de um bailado saio sonhando ser bailarina e danço, por dentro, durante dias aqueles movimentos. Quem me vende o bilhete não imagina que não compro um lugar para me sentar naquele momento, compro a possibilidade de aquele espectáculo ter lugar em mim durante alguns dias.
Umas horas como estas ficarão em mim durante alguns dias a inspirar-me a vida, o olhar e o caminho... Sem esforço, só com abertura e leveza, como passos de bailarina em palco. Na certeza que depois disto passar a Vida me vai oferecer gratuitamente outro bilhete, e eu e Ela sorriremos uma para a outra exactamente pelo mesmo motivo. A isto eu chamo um maravilhoso presente. Obrigada.





quarta-feira, 29 de março de 2017

Kom, koom...

Há dias em que batem à porta para saber se tens electricidade paga ou se é uma puxada.
Há dias em que batem à porta para oferecer um serviço sério de limpeza.
Há dias em que batem à porta para oferecer um aparar de árvore.
Há dias em que batem à porta para oferecer um postal ou alguns folhados de peixe.
Há dias em que batem à porta para pedir um copo de água.
Por aqui não se "bate à porta". Por aqui chega-se ao portão e grita-se para dentro "Kom Kom".
Por aqui não se chama "Ó da casa!". Por aqui fala-se alto à soleira de uma entrada com porta ou sem porta, sem sítio para bater a mão em algo que se faça ouvir.  Aqui não se bate, não se chama, é-se a própria batida. É-se a porta e a mão, é-se a percussão que anuncia que se chega, que se quer saber quem está dentro... Que se quer entrar.
Kom, koommm, kom, kooomm! Digo eu sempre que chego a casa.



sábado, 25 de março de 2017

Saúde...

Na Guiné-Bissau, a Cáritas tem Centros de Recuperação Nutricional ou Centros de Reabilitação Nutricional, conforme quem os apresenta. São quase 25 espalhados por todo o país, geridos normalmente por religiosas consagradas que empregam colaboradores locais. Entre outras valências muito importantes, são espaços que respondem aos problemas de desnutrição e de educação alimentar flagrantes por aqui. 
Num dos dias que visitei um dos centros longínquos, pois estão o mais perto possível das pessoas que precisam, o que quer dizer de difícil acesso, a irmã responsável partilhava uma constatação:
- Em tempo de festas os casos de desnutrição diminuem drasticamente. No tempo da campanha do caju, quando todos têm trabalho, e até o mais pequenino vira patrão de si mesmo, é a mesma coisa.

E fiquei a pensar como é profunda, e reflexo da nossa humanidade, esta constatação. Os momentos de alegria e de festa são sinal de saúde, dão saúde e fazem-nos imunes. O trabalho, o trabalho que tem retorno, reconhecimento, o trabalho que nos melhora a vida e nos ocupa mãos e cabeça, estejamos onde estivermos, dá-nos saúde, faz-nos mais fortes, mais activos e mais felizes.
Não é nenhuma ideologia política, é uma constatação no interior de um dos países com o índice de desenvolvimento mais baixo do do mundo (claro que esse índice se define aos olhos de outras gentes que não estas). Não será uma verdade absoluta num pais em que a esperança media de vida não chega aos 50 anos e onde só os mais básicos problemas de saúde têm alguma (remota) possibilidade de resposta. Num país em que os governantes mandam as suas mulheres parirem noutros países ou eles próprios nunca entrarão nos hospitais que governam, para curar um dedo que seja. 
Num país como este, acontece o mesmo que em todos, a festa e o trabalho são sinais de saúde, ou pelo menos de diminuição dos casos de doença! 
Então que num país como este, (neste campo ao mesmo nível de todos), que o trabalho e a festa sejam uma constante e a todos nos curem dos males do corpo e da alma que se instalam pela falta (ou excesso) deles.




quinta-feira, 16 de março de 2017

Hábitos...

Entre 2010 e 2011 tive uma crónica quinzenal num jornal regional em Portugal. O Região de Leiria convidou-me para escrever e eu aceitei, com medo, um desafio que me deu muito prazer. Hoje rio a olhar para muitas das palavras que escrevi, das ideias que alinhavei. Rio comigo e rio para mim. 
É lugar comum dizer-se que é bom sair, é bom viajar... É bom sim, bom mas não ao mesmo nível do comer saudável ou fazer desporto. Não é por razões higiénicas que é bom, é precisamente pelo contrário.
Estar num local novo aos nosso hábitos é mais que uma diferença geográfica é muito mais do que uma alteração de coordenadas, é uma contaminação física, mental e emocional. É acima e tudo uma viagem no tempo. (As máquinas do tempo existem há mais tempo do que imaginamos, existem desde que nos começámos a conjugar no plural muito antes de sabermos o que era uma máquina.) E há tantos tempos quanto paisagens e não falo do clima. Falo do tempo dos homens, das histórias, dos hábitos, do ser. Há um "Ser" com tempo, por exemplo, o meu ser de há seis anos não está na mesma distância temporal do meu ser de hoje.
Lembrei-me disso a respeito do texto em baixo. Hoje não há um dia em que não veja um homem a urinar aos olhos de todos e sem parede, pessoas a cuspir para o chão, ou todo o tipo de lixo nas ruas... Passaram mais de seis anos e hoje não me impressionam as beatas, nem me lembro delas e até parece que nunca as vi por aqui. Somos mesmo nós e as nossas circunstâncias, nós e o nosso contexto, nós e o nosso "tempo", que nada tem a ver com calendários, tal como esta "geografia" pouco tem a ver com mapas.

Hábitos...
Se atentarem uns minutos à entrada de um restaurante ou sala de espectáculos, por exemplo, podem contar o número de pessoas que ao entrar faz um gesto mais ou menos gracioso de deitar o resto do cigarro para o chão. 
Há quem se aprimore da acção e descreva um arco gordinho projectando a beata a partir do polegar, alavancada pelo indicador. Há quem opte por um gesto afiado em linha recta para o chão aproveitando a oportunidade para pisar de forma opressiva e circular a pobre da beata que tenta ainda libertar um último suspiro. 
Podem dizer que não há cinzeiros, mas não são as desculpas que necessariamente legitimam os actos.
Nada tenho contra quem fuma, nem é sobre o acto em si que partilho a minha opinião. 
Deitar uma beata fora não é a mesma coisa que atirar uma pedra rolada ao rio e admirar as vezes que ela saltará sobre a água até se afundar no leito que a trouxe. 
Deitar uma beata ao chão de forma “inconsciente”, não é um hábito natural: mostra a forma como encaramos o espaço comum e está ao nível do cuspir para o chão, livrar-se da pastilha elástica ou urinar nas paredes. 

Claro que evitamos conscientemente pensar em tudo isto... mas se pensássemos, agiríamos de outra maneira?
Região de Leiria 30 de Março de 2011








quarta-feira, 8 de março de 2017

Estações...


No sítio onde estou, António Vivaldi não teria escrito um concerto para piano e orquestra a que chamou Quatro Estações e os seus conterrâneos não teriam "inventado" uma pizza do mesmo nome para se saciarem e agradarem a todos os comensais. 
No sítio onde estou existem duas estações, a estação das chuvas e a estação seca. Não há misturas nem confusões.
Na Guiné-Bissau, numa estação chove e noutra não.
Dividir o tempo em dois requer outro alinhamento mental, outra forma de ver ritmos e cores. É a geografia e o clima a modelar a mente e o corpo, para uma forma de ser que se faz ao som de koras, balafons, djambés e tinas em vez de violinos e orquestras. 
E quando chove na estação seca? 
Quando, contra todas as probabilidades ou todas as certezas chove em Fevereiro? 
Aí os homens grandes dizem que é "chuva antiga", chuva que não foi chovida no seu tempo. Chuva que vem cumprir-se.
É chuva que vem estragar as mangas, apodrecer o arroz que descansa seguro no campo a céu aberto depois de ter sido apanhado. É chuva que espanta e apanha toda a gente desprevenida porque esta gente confia no ritmo binário de se ser.
Quando vejo chover em Fevereiro penso de outra maneira. Penso que é chuva da que há-de vir, chuva que veio à frente ver a terra da qual tinha saudades mesmo que isso estrague a surpresa do dia que marcou vir em Junho. Quando vejo chover aqui, na estação seca, sinto o mesmo quando vejo um dia de Sol quente e seco na minha terra em pleno Inverno, imagino que esse dia traz cumprimentos da Primavera e será prenuncio do que há-de vir. Nunca, restos do que já veio como sussurram os homens grandes.
A chuva antiga está tão fora de mim como a alemã rosada que encontro em biquíni na praia de Albufeira no mês de Fevereiro.
E fico-me aqui a saborear a sabedoria da chuva antiga, da chuva não chovida de que fala, quem sabe coisas que eu não sei. Da chuva que vem do passado, que estraga o ritmo dos homens só para se cumprir. Porque o bem maior é cumprir-se e nunca deixar de se chover. Mesmo que se venha tarde. Mesmo que se tenha perdido o comboio que partiu em Novembro... Claro que aqui não há comboios. 

Imagino que nesta sabedoria antiga as despedidas são muito mais significativas que os encontros. A morte muito mais mágica que a vida! O fim muito mais importante que o principio. 
Isto ninguém me disse, foi a "chuva antiga" que me inspirou.