quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Setembro...

Setembro é o mês dos recomeços, ou será dos começos?
Na verdade começamos sempre a cada dia por isso talvez não haja mês para isso. E, ainda assim, 
há meses que são mais de começos que outros... Janeiro, Março e Setembro são os meus meses de recomeços, o ano novo e o meu natal, a primavera, e o tempo dos frutos maduros no final do verão, marcam o meu ritmo e as estações interiores que me regem.
Em todos estes momento há colheita e sementeira numa ordem que não é lógica nem biológica. 
Setembro é mês de recomeços e isso é maravilhosamente assustador como um salto para o vazio (onde nada falta).

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Buracos...

As estradas de terra ficam com buracos feitos pelas chuvas e pela passagem de carros e carros... As estradas de alcatrão também ficam com buracos e na verdade os buracos na estrada de alcatrão são muito mais "duros". Sentem-se mais, também, porque a velocidade é maior neste tipo de piso aonde o impacto dos pneus pode ser brutal.
Ainda assim só quero falar das estradas de terra batida e de velocidade.
Tenho uns amigos que moram num bairro em Bissau. Chego a casa deles por uma estrada de batida terra vermelha que até parece que nem levanta pó de tão calcada. Um destes dias estavam a arranjar a estrada. Camiões grandes descarregavam terra e pedra para taparem os buracos e duas grandes máquinas de terraplanagem, uma niveladora e um daqueles compactadores vibratórios com cilindros gigantes alisavam o pavimento vermelho vivo.
Fiquei encantada com aquele andar direito, sem solavancos que baralham fígados com baços e segui para casa aproveitando lentamente a calmaria.
Passada uma semana quando voltei à dita estrada, haviam levantado "quebra molas" de 20 em 20 metros... Quebramolas são lombas, pequenos muros que controle de velocidade, desta feita da mesma cor do pavimento e sem sinalização que desde logo faz subir o nível de surpresa ... Já não são os buracos que nos desarranjam as entranhas, são agora as lombas que também se podiam chamar quebra costelas ou quebra cabeças, se não estivermos muito atentos.
É certo que a estrada deixou de ter buracos, ainda assim o incomodo para o corpo é o mesmo. Esta brincadeira "concavóconvexa" deixa-me perplexa.
Talvez seja mais barato aceitar os buracos como medida de limite de velocidade e sinalizar devidamente tal intencionalidade. Em todo o caso as estradas "desarranjadas" são o melhor controlo de velocidade que conheço.


domingo, 11 de junho de 2017

Caminho...

Saio da casa, fecho o portão da rua, arrumo a chave no bolso direito da mochila e sigo pela esquerda em direcção a um dos escritórios. Para este, faço um atalho por um campus universitário, um espaço com uma arquitectura da qual gosto muito. Um espaço a precisar de cuidado e no qual passo como que a viajar no tempo, imaginando uma herança de outros (ou minha também). Subo e desço, pequenos lances de escadas protegidos do sol por alpendres que trazem sombra ao caminho, habitado por alunos que esperam aulas. Estas passagens frescas cruzam jardins interiores, com árvores e arbustos onde se pavoneiam os mais variados animais, dos quais sempre me encantam as galinhas pretas com pintas brancas...
Neste caminho é frequente que desconhecidos me cumprimentem, pois também eu pareço uma ave rara naquele caminho. Mesmo se vou muito metida comigo imaginando histórias em rostos ou espaços desconhecidos, sigo segura ultrapassando todos os que seguem na mesma direcção que eu, não é raro ouvir um bom dia, ou um, como é que está? 
Um destes dias, alguém encostado a uma parede, acompanhando a troca de passos rápidos e o anormal movimento acelerado, olha para mim e pergunta:
- Porquê tanta pressa? 
Sorri sem abrandar e sem resposta. Aquela pergunta ficou-me a ressoar! 

Porquê tanta pressa? 
Não vou atrasada, mas sigo apressada.
A pergunta continua a fazer sentido colocar-se, até num domingo.
Porquê tanta pressa?



Antigas instalações no Banco Nacional Ultramarino em Bissau

sábado, 3 de junho de 2017

Dia...


Há um dia em que o carro não pega.
Há um dia em que corres tanto que os sapatos, velhíssimos, te fazem bolhas nos pés.Há um dia em que não há ovos nem leite em lado nenhum. Há um dia em que chegas a casa e a chave não abre a porta.
Há um dia que traz de presente 50 quilos de arroz, alheiras e manjericão.
Há um dia em que encontras uma amiga na rua e vais com ela quebrar o jejum.
Há um dia em que as salas de tratamento são corredores e tu contas as gotas de quinino que entram na veia de outros.
Há um dia em que alguém te reconhece de longe e te chama pelo nome.
Há um dia em que ouves os gritos de uma velha mãe que perde o filho na cama de um hospital e ao mesmo tempo no andar de cima, ecoam os gritos da mãe que traz ao mundo um filho novo.
Há um dia em que chegas à cama tão de noite que não sabes quantos dias passaram desde a última vez que aqui estiveste.  

Já houve um dia assim em Bissau.
E todos os dias agradeço os dias intensos e imensos que se materializam em abraços, em reuniões que passam a conversas, em boleias de sorrisos com direito a experimentar roupa emprestada. Dias de conversas sobre panos e sobre viagens, artistas, arte e música. Dias em que se sonha com chutney de manga ou de caju. Dias em que se encontram alguns daqueles que não víamos há semanas e desejávamos tanto. 
E digo isto no plural porque é de plurais que se alimentam estes saborosos dias, mesmo que seja só um. 



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segunda-feira, 29 de maio de 2017

Desolhar...


Estava eu à procura de um sinónimo para uma palavra difícil e logo dou com os olhos na palavra desolhar.
Que palavra estranha e que estranheza bonita...
Eu posso tirar os olhos a alguém ou a alguma coisa, e no mesmo termo, esforçar-me para ver melhor e mais longe. É o paradoxo do que somos.
"Vale tudo menos tirar olhos" dizíamos nós nas brincadeiras quando éramos mais pequenos, e podíamos dizer se soubéssemos esta palavra, ou não pensássemos que estávamos errados "vale tudo menos desolhar" sem sabermos que às vezes, tirar olhos, ajuda ao desenvolvimento. 
Desolhar parece que faz parte da família de desdescer ou des-subir que são palavras que não existem ainda, mas que podem vir a existir integrando o universo da palavra descobrir.



de·so·lhar 
(des- + olho + -ar)
verbo transitivo
1. Tirar os olhos a.
2. Suprimir botões florais ou foliaresgeralmente para que a planta  melhores frutos e tenha melhor desenvolvimento.
3. [Brasil]  Tirar o mau-olhado de.
verbo pronominal
4. Esforçar-se ou esbugalhar os olhos para ver alguma coisa (ex.: desolhava-se para ver o palco).


"desolhar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/desolhar [consultado em 26-05-2017].

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Noite...

Vivo numa casa com varanda. Uma varanda que dá para a rua perpendicular à rua principal, com nome de músico, mesmo que ninguém saiba isso! 
Vivo numa casa que faz esquina com a rua principal em asfalto, que dá para uma rua desnivelada de terra batida que é o acesso a todas as casas que se encontram à minha esquerda e à minha frente. 
Mais ou menos a meio, no lado oposto à minha varanda, há um poço que serve as casas que não têm água canalizada.
No lado de fora do meu muro há um poste de luz amarela que me doura as noites quando me sento sozinha na varanda protegida dos mosquitos por uma rede fina. E como gosto deste momento de solidão nocturna a admirar o mundo que fervilha aqui à volta. Pode estar-se em silêncio com tantos barulhos à volta? Sim pode.
Passa uma aragem que alivia o calor dos dias e torna tudo mais leve e nítido na noite.
Os sons são muitos, parece barulho... Mas se atentar melhor, se me calar por dentro, consigo ver outras realidades sonoras que já não entram no espectro do ruído mas numa outra dimensão que não sei agora nomear.  
Ouve-se constantemente música, umas vezes baladas lamechas, umas vezes quizomba entre um solo de saxofone e uma canção da moda. Há canções que se repetem... E o som integra-se perfeitamente na "paisagem" que pinto de olhos fechados. Ou porque me habituei ou porque de facto assim acontece... a fronteira é tão ténue.
Ouço vozes de crianças a brincarem empolgadas, alguns gritos de espanto outros de raiva. Ouço amigos que fazem festa no bar da esquina, gente que passa falando alto, gente que ri num lado, gente que ralha e não sei se estão a 2 se a 20 metros, porque a noite tem esta magia de nos trazer sons sem referência das distâncias.
Os carros passam na rua José Carlos Schwarz a diferentes ritmos, como que a integrar a secção rítmica de uma orquestra moderna, com diferentes tilintares de chapa, roncares de motores, alguma travagem bruta, buzinas, cargas que se movem em "caixas abertas" de camionetas que contornam buracos. Imagino um arrastar de vento em forma de v que se vai esfumando no ar à medida que os veículos de afastam. E ouço também portas de carro que batem algures, como que se dum berimbau lento se tratasse.
O Jó, o nosso segurança, faz as suas lições de Português e lê em voz alta o seu livro da escola, numa língua que tenho dificuldade em reconhecer como minha. Rendo-me a este esforço de aprender e a este som de quem repete mecanicamente um desejo profundo. Este o primeiro passo para o conhecimento... 
Há movimento nas casas em frente, um movimento tranquilo de quem aprecia a noite como eu e se senta nas suas cadeiras de plástico a conversar e a apanhar "uma calma" como se diz no Alentejo, afinal somos todos muito mais parecidos do que parece.
Passam pessoas à minha frente, do outro lado do muro, rua acima, rua abaixo, e ao ver estes movimentos falta-me alguma coisa, percebo que a imagem não está de acordo com o som e imagino que não tenha colocado correctamente o jack nas colunas... Parece que flutuam, como que, se no meio daqueles sons todos, a rua fosse habitada apenas por espíritos, porque lhes falta o som dos passos no caminho que fazem à minha frente.
Falta-me o som dos passos, e contudo aos passos não falta nada, nesta realidade imaterial que eu escrevo para tornar mais concreta em mim.
O outro lado de enraizar é o flutuar, como a música. Os dois são precisos. E o som dos passos aqui, afinal, não faz falta nenhuma. 

Só uma nota para não me esquecer: a semana passada o Presidente da República passou por aqui e por isso taparam os buracos na estrada de asfalto que todos os anos fica ferida pelas chuvas e este ano não tinha visto ainda cura. Sabem o que isso significa? Significa que eu já não acordo de noite com o barulho das galeras dos camiões a saltarem por cima das crateras brutais e a caírem como morteiros. Significa que já nem me dou conta que tenho uma janela virada para a estrada. Significa que já nem me lembro dos buracos que por aqui havia porque deixaram de fazer barulho...





terça-feira, 16 de maio de 2017

Casas de banho...

Entrei numa casa de banho pública, na verdade na casa de banho de um centro comercial no centro de Lisboa.
Ao entrar já uma senhora, em frente ao espelho, olhava para dentro da carteira colocada em cima do lavatório.
Entrei num cubículo ao lado de um outro cuja maçaneta segurava um casaco aos quadrados que seria daquela senhora, fechei a porta e quando saí a mesma senhora continuava a procurar algo na sua carteira, como se de um poço sem fundo se tratasse. Olhei para ela e sorri enquanto lavava as mãos.
O reboliço estava instalado, as suas carteirinhas, lenços e um caderninho de argolas, usadíssimos e enrodilhados, ocuparam os lavatórios vizinhos... E ela continuava à procura.
De repente como que vencida, mas tranquila, suspira e diz para mim: 
- Está no casaco.
Rimos as duas, quando ela encontra o pentinho preto no bolso do casaco pendurado na porta atrás de nós.
De volta ao espelho diz-me enquanto se penteia. 
- Isto é um vício que eu tenho... Lavar as mãos e pentear o cabelo, principalmente em casas de banho boas e bonitas como esta. O meu filho diz que eu tenho cabelo de rato e é verdade... Fraquinho e fininho que mal se vê, mas que quer? Ele diz que, se não pentear até fica com mais volume. E é verdade...
Eu sorri enquanto secava as mãos com papel higiênico, sim, porque as máquinas de secar as mãos são as coisas mais anti-sociais que conheço nas casas de banho. Aprecio por demais a privacidade do meu cubículo com sanita que posso fechar e abomino as máquinas de secar as mãos, mas isso é outra história....
Continuando... Depois peguei no meu baton, como que a fazer companhia àquele ritual de beleza capilar sem dizer uma palavra e concordando com a opinião do seu filho. Aquele pente destruía agora, qualquer pretensão de volume naqueles finos fios cinzentos.
Só me ri e desejei-lhe um bom dia ao arrumar o baton.
A senhora agradeceu e respondeu:
- Muito obrigada por ter estado comigo. Pelo seu sorriso. Que Deus lhe dê o dobro do que me deseja. 
E eu saí a pensar que conscientemente não desejei nada à senhora, apenas estive... E que o dobro de nada é nada... 
Mas se estar ali com ela aqueles momentos... Estar sem pensar em nada, só estar presente e prazerosamente. Se a acompanhar na busca do pente perdido, foi um momento de relação e empatia, então talvez Deus me dê em dobro, encontros, tempos, sintonias e silêncios que confortam... Em todo o caso, e mesmo que este acto não tenha rentabilidade futura na caderneta de pontos das boas obras, já recebi humildemente nesta casa de banho a gratidão de uma desconhecida, a generosidade dos votos, a gratuidade dos encontros que não se programam e não se voltam a repetir. 
A gratuidade e a fecundidade dos encontros são das coisas mais mágicas da vida e tantas vezes os perdemos no barulho das máquinas de secar as mãos ou na preguiça de gestos de "ficar"... E no fim de contas perdemos o que verdadeiramente nos embeleza a cara. Eu, pelo menos, tenho a certeza que saí mais bonita daquela casa de banho e não foi só por usar o baton que me deu a Stina.

sábado, 8 de abril de 2017

Inspiração...

As teorias, os grupos, as tribos, as estéticas, os pensamentos, as línguas, os tempos (...) têm palavras que os caracterizam. As palavras são como as roupas, vestem-nos... Dizem o que somos, mesmo que umas vezes não queiram dizer nada. Visto-me para ir à festa ou visto-me com as palavras "capacitação e empoderamento" se estou numa ONGD e por aí a fora, do "shanty shanty" colorido a cheirar a incenso, às tatuagens celtas que povoam um universo negro e introspectivo com cheiro a erva. É certo que as palavras são cheias de sinónimos e pesos diferentes e por isso, tal como a roupa, não são absolutos e estão sempre sujeitas à moda.
Por exemplo, a expressão comum a todos os coachs do mundo é a bela utopia de "a minha melhor versão". Não consegues falar "coaches" se não usares no sítio certo a expressão "melhor versão". É inteligente a utilização destas palavras, reconheço isso. Pessoalmente cansa-me. 
Repete-se continuamente e a todo o custo que "a minha melhor versão" depende de mim, do meu esforço, do meu investimento, do meu umbigo. Sou totalmente responsável por tudo e o meu mundo resume-se à minha força, vontade e responsabilidade. Nem discuto isto. Só sei que me cansa.
Estas palavras deixam de fazer sentido para mim principalmente depois da dúzia de horas que juntam estes dois dias, em que a gratidão e o espanto foram o motor para uma palavra que me é mais querida, luminosa, preciosa e ajustada. 
A palavra do momento é inspiração.
Estar ao lado do Flora Gomes e ouvi-lo na sua simplicidade, acolhimento, inteireza e grandeza interior; ouvir o Mú Mbana, na sua pacifica melancolia que transmite respeito e ligação por um passado que se honra e nos constrói; sonhar com espaços onde a beleza, a reflexão, a alegria e a surpresa, possam ser acessíveis a todos os que desejam sonhar; amar quem termina uma mítica corrida na esperança de que "o inferno nos pode levar ao céu"; ouvir ELA do álbum Língua Franca deitada na solidão do meu querido sábado...
Menos de doze horas que me enchem de esperança no mundo e nas pessoas, ou melhor, no mundo que podemos (nós pessoas) construir, não só com as nossas melhores versões, mas com tudo o que somos. Um mundo que podemos construir inspirando-nos, conscientes das nossas contradições, idiossincrasias, incoerências e desconhecimentos... 
Quando saio de um bailado saio sonhando ser bailarina e danço, por dentro, durante dias aqueles movimentos. Quem me vende o bilhete não imagina que não compro um lugar para me sentar naquele momento, compro a possibilidade de aquele espectáculo ter lugar em mim durante alguns dias.
Umas horas como estas ficarão em mim durante alguns dias a inspirar-me a vida, o olhar e o caminho... Sem esforço, só com abertura e leveza, como passos de bailarina em palco. Na certeza que depois disto passar a Vida me vai oferecer gratuitamente outro bilhete, e eu e Ela sorriremos uma para a outra exactamente pelo mesmo motivo. A isto eu chamo um maravilhoso presente. Obrigada.





quarta-feira, 29 de março de 2017

Kom, koom...

Há dias em que batem à porta para saber se tens electricidade paga ou se é uma puxada.
Há dias em que batem à porta para oferecer um serviço sério de limpeza.
Há dias em que batem à porta para oferecer um aparar de árvore.
Há dias em que batem à porta para oferecer um postal ou alguns folhados de peixe.
Há dias em que batem à porta para pedir um copo de água.
Por aqui não se "bate à porta". Por aqui chega-se ao portão e grita-se para dentro "Kom Kom".
Por aqui não se chama "Ó da casa!". Por aqui fala-se alto à soleira de uma entrada com porta ou sem porta, sem sítio para bater a mão em algo que se faça ouvir.  Aqui não se bate, não se chama, é-se a própria batida. É-se a porta e a mão, é-se a percussão que anuncia que se chega, que se quer saber quem está dentro... Que se quer entrar.
Kom, koommm, kom, kooomm! Digo eu sempre que chego a casa.



sábado, 25 de março de 2017

Saúde...

Na Guiné-Bissau, a Cáritas tem Centros de Recuperação Nutricional ou Centros de Reabilitação Nutricional, conforme quem os apresenta. São quase 25 espalhados por todo o país, geridos normalmente por religiosas consagradas que empregam colaboradores locais. Entre outras valências muito importantes, são espaços que respondem aos problemas de desnutrição e de educação alimentar flagrantes por aqui. 
Num dos dias que visitei um dos centros longínquos, pois estão o mais perto possível das pessoas que precisam, o que quer dizer de difícil acesso, a irmã responsável partilhava uma constatação:
- Em tempo de festas os casos de desnutrição diminuem drasticamente. No tempo da campanha do caju, quando todos têm trabalho, e até o mais pequenino vira patrão de si mesmo, é a mesma coisa.

E fiquei a pensar como é profunda, e reflexo da nossa humanidade, esta constatação. Os momentos de alegria e de festa são sinal de saúde, dão saúde e fazem-nos imunes. O trabalho, o trabalho que tem retorno, reconhecimento, o trabalho que nos melhora a vida e nos ocupa mãos e cabeça, estejamos onde estivermos, dá-nos saúde, faz-nos mais fortes, mais activos e mais felizes.
Não é nenhuma ideologia política, é uma constatação no interior de um dos países com o índice de desenvolvimento mais baixo do do mundo (claro que esse índice se define aos olhos de outras gentes que não estas). Não será uma verdade absoluta num pais em que a esperança media de vida não chega aos 50 anos e onde só os mais básicos problemas de saúde têm alguma (remota) possibilidade de resposta. Num país em que os governantes mandam as suas mulheres parirem noutros países ou eles próprios nunca entrarão nos hospitais que governam, para curar um dedo que seja. 
Num país como este, acontece o mesmo que em todos, a festa e o trabalho são sinais de saúde, ou pelo menos de diminuição dos casos de doença! 
Então que num país como este, (neste campo ao mesmo nível de todos), que o trabalho e a festa sejam uma constante e a todos nos curem dos males do corpo e da alma que se instalam pela falta (ou excesso) deles.




quinta-feira, 16 de março de 2017

Hábitos...

Entre 2010 e 2011 tive uma crónica quinzenal num jornal regional em Portugal. O Região de Leiria convidou-me para escrever e eu aceitei, com medo, um desafio que me deu muito prazer. Hoje rio a olhar para muitas das palavras que escrevi, das ideias que alinhavei. Rio comigo e rio para mim. 
É lugar comum dizer-se que é bom sair, é bom viajar... É bom sim, bom mas não ao mesmo nível do comer saudável ou fazer desporto. Não é por razões higiénicas que é bom, é precisamente pelo contrário.
Estar num local novo aos nosso hábitos é mais que uma diferença geográfica é muito mais do que uma alteração de coordenadas, é uma contaminação física, mental e emocional. É acima e tudo uma viagem no tempo. (As máquinas do tempo existem há mais tempo do que imaginamos, existem desde que nos começámos a conjugar no plural muito antes de sabermos o que era uma máquina.) E há tantos tempos quanto paisagens e não falo do clima. Falo do tempo dos homens, das histórias, dos hábitos, do ser. Há um "Ser" com tempo, por exemplo, o meu ser de há seis anos não está na mesma distância temporal do meu ser de hoje.
Lembrei-me disso a respeito do texto em baixo. Hoje não há um dia em que não veja um homem a urinar aos olhos de todos e sem parede, pessoas a cuspir para o chão, ou todo o tipo de lixo nas ruas... Passaram mais de seis anos e hoje não me impressionam as beatas, nem me lembro delas e até parece que nunca as vi por aqui. Somos mesmo nós e as nossas circunstâncias, nós e o nosso contexto, nós e o nosso "tempo", que nada tem a ver com calendários, tal como esta "geografia" pouco tem a ver com mapas.

Hábitos...
Se atentarem uns minutos à entrada de um restaurante ou sala de espectáculos, por exemplo, podem contar o número de pessoas que ao entrar faz um gesto mais ou menos gracioso de deitar o resto do cigarro para o chão. 
Há quem se aprimore da acção e descreva um arco gordinho projectando a beata a partir do polegar, alavancada pelo indicador. Há quem opte por um gesto afiado em linha recta para o chão aproveitando a oportunidade para pisar de forma opressiva e circular a pobre da beata que tenta ainda libertar um último suspiro. 
Podem dizer que não há cinzeiros, mas não são as desculpas que necessariamente legitimam os actos.
Nada tenho contra quem fuma, nem é sobre o acto em si que partilho a minha opinião. 
Deitar uma beata fora não é a mesma coisa que atirar uma pedra rolada ao rio e admirar as vezes que ela saltará sobre a água até se afundar no leito que a trouxe. 
Deitar uma beata ao chão de forma “inconsciente”, não é um hábito natural: mostra a forma como encaramos o espaço comum e está ao nível do cuspir para o chão, livrar-se da pastilha elástica ou urinar nas paredes. 

Claro que evitamos conscientemente pensar em tudo isto... mas se pensássemos, agiríamos de outra maneira?
Região de Leiria 30 de Março de 2011








quarta-feira, 8 de março de 2017

Estações...


No sítio onde estou, António Vivaldi não teria escrito um concerto para piano e orquestra a que chamou Quatro Estações e os seus conterrâneos não teriam "inventado" uma pizza do mesmo nome para se saciarem e agradarem a todos os comensais. 
No sítio onde estou existem duas estações, a estação das chuvas e a estação seca. Não há misturas nem confusões.
Na Guiné-Bissau, numa estação chove e noutra não.
Dividir o tempo em dois requer outro alinhamento mental, outra forma de ver ritmos e cores. É a geografia e o clima a modelar a mente e o corpo, para uma forma de ser que se faz ao som de koras, balafons, djambés e tinas em vez de violinos e orquestras. 
E quando chove na estação seca? 
Quando, contra todas as probabilidades ou todas as certezas chove em Fevereiro? 
Aí os homens grandes dizem que é "chuva antiga", chuva que não foi chovida no seu tempo. Chuva que vem cumprir-se.
É chuva que vem estragar as mangas, apodrecer o arroz que descansa seguro no campo a céu aberto depois de ter sido apanhado. É chuva que espanta e apanha toda a gente desprevenida porque esta gente confia no ritmo binário de se ser.
Quando vejo chover em Fevereiro penso de outra maneira. Penso que é chuva da que há-de vir, chuva que veio à frente ver a terra da qual tinha saudades mesmo que isso estrague a surpresa do dia que marcou vir em Junho. Quando vejo chover aqui, na estação seca, sinto o mesmo quando vejo um dia de Sol quente e seco na minha terra em pleno Inverno, imagino que esse dia traz cumprimentos da Primavera e será prenuncio do que há-de vir. Nunca, restos do que já veio como sussurram os homens grandes.
A chuva antiga está tão fora de mim como a alemã rosada que encontro em biquíni na praia de Albufeira no mês de Fevereiro.
E fico-me aqui a saborear a sabedoria da chuva antiga, da chuva não chovida de que fala, quem sabe coisas que eu não sei. Da chuva que vem do passado, que estraga o ritmo dos homens só para se cumprir. Porque o bem maior é cumprir-se e nunca deixar de se chover. Mesmo que se venha tarde. Mesmo que se tenha perdido o comboio que partiu em Novembro... Claro que aqui não há comboios. 

Imagino que nesta sabedoria antiga as despedidas são muito mais significativas que os encontros. A morte muito mais mágica que a vida! O fim muito mais importante que o principio. 
Isto ninguém me disse, foi a "chuva antiga" que me inspirou.












sábado, 4 de março de 2017

Anoitecer...

Ninguém pode dizer que uma tabanca é uma coisa sossegada! Talvez o possam dizer na hora da sesta... Na hora do calor concordo, depois não!
O climax chega ao final do dia, os galos cantam ao despique, as cabras balem numa conversa infernal. As mulheres falam, alguém pila ritmadamente alimentos ou descasca arroz, e as crianças... as crianças são tantas, gritam, choram, falam, correm. Ouve-se um rádio. Alguma música ao fundo. Os pássaros juntam-se nas árvores pondo a conversa em dia ensurdecedoramente.
Tudo isto impede que nos ouçamos sem esforço quando falamos baixo a um metro de distância.
Parece que se ouvem corujas... Ouvem-se coisas que não se parecem com nada e que, na noite, atribuo a seres fantásticos que povoam o imaginário animista desta gente. Daqui a pouco isto acalma para dar lugar aos grilos e às cigarras. Lá pelas duas da manhã chegará o por fim um silêncio que me é por demais saboroso!
Uma tabanca não é uma coisa silenciosa, não, e ainda assim este barulho não agride, é o barulho da vida.... Este é como o barulho do mar, o barulho das ondas...  Afinal há pouca diferença, porque também aqui são os ritmos das luas que influenciam as marés! 
Adormeço embalada por este som, constatando que me dá a paz que o mar oferece, num vai e vem de vida, num vai e vem de vidas que me espantam por tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais ao que conheço. É lindo o anoitecer numa tabanca... É único e mágico que não há palavras que o descrevam e ainda assim tento aqui deitada e em silêncio, com luz de frontal, envolvida num casulo de rede mosquiteira... Tento gravar tinta azul neste caderno quadriculado como quem tatua um símbolo na pele consciente que mudem as circunstâncias, os gostos ou as modas nunca mais da nossa pele sairá aquela marca que optámos ter e nos orgulhamos de ver.
Nunca me arrependi de uma tatuagem e sei que nunca me arrependerei das noites que passo assim imóvel a ouvir os barulhos que me tatuam por dentro. 
As paisagens que vejo de olhos fechados ou na escuridão dos dias são de todas as mais fantásticas. Os meus ouvidos pintam quadros que os olhos nunca conseguirão ver. Talvez porque não existam verdadeiramente... Ou porque, talvez, esta seja a única forma de existir verdadeiramente, e este o único acesso a essa verdade.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Tabancas...


Nas tabancas (assim se chamam as aldeias, os povoados na Guiné-Bissau) ao anoitecer começa uma outra vida, ou a vida continua de forma ainda mais surpreendente para mim.
Não há eletricidade. A luz vê-se na boca ou na mão das pessoas que transportam telemóveis, lanternas solares ou a pilhas que lhes iluminam os passos ou os cumprimentos.
A tabanca é salpicada por pequenas fogueiras. O fogão de cada um está à vista de todos. Sobre a terra batida, três pedras grandes suportam uma panela preta por fora onde fervilha algo aquecido pelo fogo que crepita dos paus que se arrumam entre as pedras.
Também há quem transporte cinzas em pequenas rodelas de metal que antes foram fundos de latas de vinte ou trinta litros de qualquer coisa. Para que elas se asse alguma coisa mais perto da porta e se evite o fumo com que se faz o carvão, imagino eu ao passar.
A esta hora do dia também se vê crianças a tomar banho. Os maiorzinhos lavam-se sozinhos em frente às casas tendo como apoio um balde, de plástico ou de metal, um género de esponja que mais parece uma rede de pesca. Os mais pequenos são esfregados por uma mulher que na minha passagem fortuita, rápida e tímida, não consigo adivinhar se é a mãe, mas se não é cuida como tal. 
Ninguém comerá sentado à mesa. Não haverá pratos ou copos e tudo estará perfeito depois da nossa passagem. 
Passar por esta terra batida e varrida é um privilégio. Sentir o ritmo a esta hora da noite uma coisa quase mágica. Sair sem interferir nele (sem uma única fotografia), uma grande alegria. Afinal há coisas que são perfeitas por natureza e só precisam de um lugar no coração para nos habitarem para sempre.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Caos...

Aprendo muito com os cheiros, a luz, a humidade e o caos da floresta.
A natureza é uma grande escola...
O que me surpreende é que não é a "casa" arrumada, limpa e ordenada que todos os dias busco, ou a visão minimalista com que habituei os olhos ao belo.
As lianas que se unem para "derrubar" aquela que as acolhe, e é maior que elas, que parecendo mais forte, sucumbe ao peso de quem acolheu com generosidade.
A luz que é roubada pelos mais fortes e grandes, aos mais pequenos e frágeis.
Aqui também o sentido de justiça é diferente do que imagino como certo.
A floresta é caótica, aleatória e cheia de contradições. Não é um jardim renascentista, é a possibilidade de renascer do caos e isso toca-me tão fundo que me apetece abraçar os troncos que apodrecem no meu caminho... As florestas sem caminhos são um mistério que quero percorrer dentro de mim. Sem medo de me perder. Sem idealizações.

Em sonhos imagino-me a abandonar as florestas das árvores do "bem e do mal" e encontrar mais à frente as árvores da vida, que se envolvem, morrem e nascem, nascem e morrem no/do caos a que pertenço.





quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Password...

Hoje a vizinha da frente veio cumprimentar-me com dois beijos!
Os pais acenaram no outro lado da estrada num cumprimento efusivo.
Perguntei-lhe pela escola, e não havia mais nada para perguntar... A única vez que conversámos foi quando me veio pedir a password da internet para poder fazer um trabalho da escola. Entregou-me o telemóvel para que nele eu escrevesse a palavra secreta (e assim continuasse).
Questionei-me com estas modernices, de agora até os trabalhos da escola poderem ser feitos através de rudimentares smartphones, num sítio em que a mensalidade da internet é igual ao ordenado de um professor.
Claro que sei que aprendemos muito com as redes sociais, que o Facebook, Messenger, Whatsapp podem ser uma boa escola da vida.
Fico feliz e espantada com o acesso caloroso que 6 números e 3 letras me possibilitam. 
Para a próxima, em vez de lhe perguntar pelas aulas estou a pensar em perguntar-lhe pelos amigos. Será abusivo?